novembro 12, 2017

Para você dar nome



Acabei de colocar a camiseta para lavar. 
As horas passaram mais rápido do que eu pudesse dar conta, a água da chuva secou duas vezes. Antes estivera úmida, no final do dia bem pouco, quase não dava para sentir, mas eu sentia. Ali na gola, perto do pescoço, ainda sentia uma gotículas mínimas. Ninguém reparou que na segunda ida ao mercado eu continuava com ela. Os colegas da noite também não notaram a umidade nas mangas, ou o peso do peito. A chuva caiu de novo naquela noite. Estava mais fraca, tímida, mas esperei, firme, em meio aquelas gotas finas e sem jeito que caíam esparsamente. Me gritaram para voltar, coisas de sereno, gripe ou qualquer falácia de velho, mas eu não quis. Deixei que as horas passassem e que o respingo fino se tornasse a enxurrada de hoje cedo. Sentia cada pingo cravar uma ferida. Eu queria cada marca na pele com força e dor. Eu queria que o vazio de mim fizesse eco, e as gotas se transformassem em uma  música calma.
A melodia não tocou. Continuei a ouvir todos os ecos de ontem, todas as risadas distorcidas pela memória. Eu queria discernir cada respiração mais forte, ou um suspiro despercebido, mas o vídeo acelerava cada vez mais. Eu já não conseguia saber a cor das roupas, se era azul ou preto, verde ou cinza. O mundo rodava sem pausas e eu pedia tanto para que o ponteiro deixasse de seguir. E eu corria atrás de cada volta, buscando um retorno, uma fuga, um vão para puxar cada pequena célula que restou naquele ambiente em que eu não fui mais. Tentei recortar todos os pedaços do quebra-cabeça fragmentado que o tempo me deu, mas boa parte dele continuou perdida em um espaço que não existe. 
Lembrei-me das palavras. Havia muitas palavras escritas em diversas folhas, mas eu só via rabiscos. Sabia ter o meu jeito torto de desenhar o 'Q', e as palavras finais sempre fora da margem como se quisessem ir além do que é permitido. Eu queria ler além da primeira linha, o pronome de tratamento inventado não me importa, eu queria o cerne daquilo que não alcanço. A chuva borrou a tinta, não era possível alcançar a linguagem do que ficou escrito. Senti o vento forte e frio, destruindo qualquer possibilidade de fuga e segurança. Sinto como se os tetos de mim nadassem por um céu inabitável. Inalcançável. 
Procurei em cada canto do tecido uma palavra escondida, uma frase que fosse, só para que eu pudesse reconstruir qualquer coisa perdida. Mas a camiseta apenas mostrava o que já era meu. O meu perfume enjoativo. Os meus fios de cabelo soltos perdidos. As minhas micro, macro, mini, células científicas idiotas. Os desenhos tortos das minhas digitais. O vazio do meu eu. O silêncio de tudo aquilo que não disse preenchendo cada linha fina do algodão colorido.  As gotas das lágrimas que ninguém chorou - mas talvez devesse porque o teto se foi, a música não tocou, não há mais palavras em mim. 
Procuro em cada vão uma vírgula, um ponto, uma risada escrita de forma engraçada. Não encontro. Visto a camiseta ainda úmida, em busca de um pedaço de mim que possa reaparecer, mas ela não serve da mesma forma. A gola está larga, a cintura estranha, as mangas tortas. Escrevo esse texto e erro a pontuação constantemente, perco os parágrafos, pulo linhas. Vai chover novamente e dessa vez eu tenho medo. Eu tenho medo de não poder segurar cada gota que aparecer, porque perdi o dentro, o in, aquela coisa toda profunda que muita gente diz por aí sem saber de nada. Eu digo também, agora,  sem saber de nada. 

E eu peço, como quem pede uma súplica final antes da morte, que o vento não destrua as páginas que me cobriam, que o fogo não queime nenhuma margem fora do limite. No fim, a gente suplica pelo adiamento da morte, pelo não-fim, pela volta seja pelos céus ou pela terra, apesar de. 

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